domingo, 7 de junho de 2015

Cor demais é brega.

Levaram algum tempo até conseguirem desfazer as malas e fazer todas as roupas caberem naqueles minúsculos e escuros armários.
- Nós precisamos comprar uma tinta para pintar essas paredes, essa cor me deixa enjoada. - Pan olhou horrorizada para a cor das paredes. - E talvez também devêssemos comprar uns quadros, e definitivamente nós vamos trocar aquelas cortinas. - Disse ela enquanto Nems se jogava na cama.
A porta entreabriu e uma cabeça cheia de cachos castanhos apareceu. A menina tinha uma pele pálida que a fazia parecer doente e seus olhos estavam fundos, parecia que ela não dormia a muito tempo, mas ela era bonita.
- Vocês são novatas também? - Ela arriscou um sorriso. - Uau, você são iguais! - Falou ela maravilhada.
Nems se apoiou no cotovelo enquanto Pan se levantou para abrir a porta para a menina.
- Sim, chegamos hoje e você?
- Cheguei ontem, moro numa cidade pequena bem longe daqui, e se eu viesse hoje não iria chegar a tempo de pegar as aulas da tarde, então o reitor me deixou ficar aqui desde ontem. Você são daqui mesmo?
- Nossa casa fica há duas horas daqui. A proposito ela é a Pan e eu sou Nems. - Ela disse se levantando da cama, colocando um casaco e fechando até o pescoço.
A diferença maior entre Pan e Nems, eram as roupas. Você podia facilmente diferencia-las pelas roupas. Enquanto as roupas de Pandia eram todas fofas e românticas, as de Nemea eram, como se pode dizer, descoladas.
- Liz. Eu vim aqui saber se vocês querem almoçar comigo? - Ela disse com os olhos esperançosos.
- Tudo bem, minha barriga já está roncando mesmo. - Pandia pegou um cardigã e o vestiu. Abriu a porta do armário e checou o visual. - Ótimo!
O caminho para o refeitório foi cheio de perguntas, Liz perguntou sobre a cidade onde moravam, seus pais, meninos, ela fez a ficha completa das meninas. O refeitório era imenso, as paredes eram todas de vidro, e conseguia-se ver de longe as mesas dispostas lá dentro, uma mulher gorda recepcionava os alunos na porta do refeitório com alguns panfletos escandalosamente coloridos nos braços. Ela tinha um sorriso enorme, que chegava a dar medo. Quando as meninas passaram ela abriu um sorriso enorme que fez seus olhos quase se fecharem e lhe deu um empolgante: Bem-vindas! E entregou um panfleto verde limão para cada uma delas. As letras em verdana diziam a seguinte mensagem.

                         BEM VINDOS CALOUROS!
       QUE ESSE ANO VOCÊS APROVEITEM A UNIVERSIDADE.

E no final da folha, depois de um mapa da universidade, havia um convite. Uma festa aconteceria para que o reitor fizesse seu pronunciamento e para que as fraternidades pudessem se apresentar. Isso era típico de todas as universidades, todo início do ano letivo, elas se apresentavam para convocar novos membros para ficarem no lugar dos que estavam se formando.
- Caramba! Uma festa já no primeiro dia, que legal! – Liz disse dando um sorriso que fez os olhos dela formarem uma linha.
- Com certeza, não vejo a hora. – Pan olhou para Nems, elas sabiam o que a outra estava pensando só de se olharem. As gêmeas, na sua antiga escola, eram consideradas as melhores anfitriãs. Elas davam as melhores festas, e todos eram convidados, o que as faziam as meninas mais populares. As festas que elas davam para os colegas da antiga escola, não eram nada pequenas. O pai delas, mesmo tendo pouco contato com as duas, não era mesquinho e nem mão de vaca, sempre deu o dinheiro que elas quiseram. Acredito que seja para que elas não o incomodem, ele fazia de tudo para ver o mínimo possível as duas. Certa vez elas alugaram um parque aquático para uma de suas festas. Agora faça uma equação básica: tobogãs altos, bebida, piscinas com hidromassagem e muitos adolescentes com os hormônios fervendo, tudo isso num só pacote não é para dar algo bom, né? Errado, a festa não só deu muito certo, como é considerada a melhor festa de todas. Mas não vamos esquecer de agradecer aos seguranças, por dar uma mãozinha quando aquele menino – que não precisamos falar o nome- quase vomitou na piscina principal. Mas não vem ao caso.
- Obviamente que nós iremos, mas antes nós temos que passar na reitoria e pegar os nossos horários, e já quero ver como são as instalações do time de natação. – Nems disse pegando um iogurte e colocando na bandeja, enquanto Pandia e Liz levavam os pratos a altura da cabeça para de que uma senhora, de cabelo branco e redinhas nos cabelos, jogasse um pouco de ovos mexidos com bacon nos seus pratos.
Nems era ótima em esportes, na sua antiga escola ela participava de todos os times, mas sempre fora melhor em natação. Era a capitã do time e seu melhor estilo era o crawl. Nos últimos meses seu tempo vinha melhorando muito e ela queria muito conseguir uma vaga no time da universidade de Buscon. Enquanto Nemea quebrava recordes na piscina, Pandia quebrava o recorde de quanto conteúdo uma pessoa podia armazenar no cérebro. Ela era um crânio, sempre era a primeira nas matérias e tinha conseguido ganhar duas regionais consecutivas na área de Ciências.
A mesa que elas escolheram era perto do banheiro, e enquanto comiam conseguiram observar os alunos entrando e se ajeitando nas suas mesas. Alguns grupos eram de fácil identificação, como os meninos enormes que falavam alto e tinham, penduradas em seus pescoços, meninas anoréxicas com minissaias, eles com certeza eram atletas, arrisco falar que do futebol; e aquelas eram as líderes de torcidas, ou então as desesperadas por fama. Na mesa ao lado um grupo de meninas e meninos conversava animadamente e decoravam scripts, teatro e música. Numa mesa mais na esquerda do refeitório, um grupo de pessoas discutiam algum tema, e faziam contas em suas calculadoras cientificas, e pelo jeito que Pandia olhava para eles, só podiam ser os CDFs.
Era engraçado como tudo poderia virar um imenso clichê, mas a universidade assim como o colegial, tem seus grupos formados.
Na ida até a reitoria, precisaram dar umas duas olhadas no panfleto verde limão que foi entregue a elas no refeitório. O prédio da reitoria era no mesmo estilo que o do dormitório. As paredes eram cobertas de tijolo a vista e as janelas eram imensas. As portas duplas estavam abertas e o fluxo de alunos era intenso, a maioria ali para pegar horário. Uma fila de estendia do balcão de atendimento até quase perto da porta, e só depois de muito ler os cartazes que estavam pregados nas paredes da reitoria elas foram atendidas. A mulher alta de meia idade com um coque no alto da cabeça, pegou o nome delas e imprimiu os horários, os carimbou e entregou para elas dando um sorriso cansado, como se não estivesse mais aguentando fazer aquilo. Mas pudera, aquela pobre senhora tendo de aguentar tantos adolescentes eufóricos, até eu estaria com dor de cabeça.
O horário de Nemea dizia que ela teria Física I e depois Literatura, enquanto Pandia teria Ciências Políticas e Biologia. Analisando as aulas no resto da semana perceberam que só teriam duas aulas juntas. O que as deixou um pouco decepcionadas porque pensaram que passariam mais tempos juntas.
Será que elas conseguem aguentar algumas horas longe uma da outra? Eu sei que é difícil para quem ficou nove meses no mesmo útero, mas será que é assim tão difícil?



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